A história que se desenrola no coração de Goiás traz uma daquelas lições de vida que nos fazem pausar o ritmo acelerado do cotidiano para refletir sobre o verdadeiro significado de determinação, resiliência e amor familiar. Quando olhamos para a trajetória de quem enfrenta longas jornadas de trabalho operacional, é comum enxergarmos apenas a rotina dura das ruas, o suor sob o sol forte e a invisibilidade social que muitas vezes acompanha certas profissões fundamentais para o funcionamento das nossas cidades. No entanto, por trás de cada uniforme de trabalho existe uma mente cheia de sonhos, um coração movido por propósitos profundos e uma história individual capaz de inspirar toda uma comunidade.
Sentir a exaustão física e mental de quem precisa dividir o dia entre o cumprimento de tarefas pesadas, o estudo acadêmico exigente e a busca incansável por rendas complementares é compreender o tamanho da força humana quando alimentada por um ideal genuíno. A jornada do indivíduo que decide transformar a própria realidade não é feita de caminhos fáceis ou vitórias sem sobressaltos; é uma caminhada marcada por noites mal dormidas, dores no corpo, momentos de dúvida avassaladora e a constante tentação de desistir diante de obstáculos imensos. É nesse cenário de superação cotidiana que o afeto da família e o apoio silencioso dos colegas de trabalho se tornam o combustível necessário para manter a chama da esperança acesa.
Ao observar o sorriso de vitória estampado no rosto de quem alcança o tão sonhado diploma universitário após anos de renúncias, somos tomados por uma onda de empatia e orgulho coletivo. Não se trata apenas de uma conquista acadêmica pessoal, mas do triunfo de uma visão de mundo onde o trabalho digno serve como ponte e não como barreira para o crescimento intelectual e profissional. É a prova viva de que a origem social ou a ocupação no presente não limitam o alcance de quem decide construir o próprio futuro com as próprias mãos, inspirando não apenas os familiares mais próximos, mas todos aqueles que diariamente buscam forças para vencer suas próprias batalhas.

O fato que mobilizou e emocionou a população de Goiânia tem nome, idade e uma trajetória profissional consolidada. Luiz Junio Cardoso Teles, de 36 anos, trabalha há 16 anos na Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg) e acaba de concluir a tão sonhada graduação em Enfermagem. Para registrar a conquista inesquecível, ele tomou uma atitude carregada de simbolismo e respeito à própria história: levou seu uniforme de gari para o ensaio fotográfico de formatura e posou com a mesma roupa que usa diariamente no trabalho de limpeza urbana. A solenidade oficial de formatura aconteceu no dia 3 de setembro, na capital goiana, selando o encerramento de um ciclo de batalhas intensas.
Em entrevista concedida ao portal Mais Goiás, Junio detalhou a complexidade e os enormes sacrifícios exigidos durante a jornada para conseguir o diploma de ensino superior. Segundo o recém-formado, o maior desafio foi conciliar a rigorosa jornada de trabalho na Comurg com as exigências teóricas e práticas da faculdade, além de realizar diversas atividades informais para complementar a renda pessoal e arcar com os custos de vida. Durante o percurso acadêmico, ele enfrentou severas dificuldades para conseguir cumprir o estágio obrigatório e admitiu que chegou a pensar seriamente em abandonar o curso devido ao desgaste extremo.
“Quando comecei a pensar em desistir foi pelo estresse, pelo cansaço e pela situação que estava acontecendo comigo. Eu sabia que seria difícil, mas, com o tempo, percebi que os obstáculos eram maiores do que eu imaginava”, conta.
“Quando comecei a pensar em desistir foi pelo estresse, pelo cansaço e pela situação que estava acontecendo comigo. Eu sabia que seria difícil, mas, com o tempo, percebi que os obstáculos eram maiores do que eu imaginava”
A engrenagem do cotidiano de Luiz Junio exigia uma disciplina férrea e uma capacidade de resistência física surpreendente. Durante uma parte significativa de sua graduação em Enfermagem, ele trabalhou sob o regime de escala 12×36 na Companhia de Urbanização de Goiânia, cumprindo seu expediente diário das 18h às 6h da manhã. Logo após deixar o turno da noite no serviço de limpeza pública, ele não ia direto para o descanso: seguia para o treino de jiu-jitsu e, em seguida, realizava entregas por meio de aplicativos de transporte até o horário do almoço.
Somente após essa maratona matinal é que Junio conseguia descansar por algumas breves horas antes de retomar a rotina focada nos estudos universitários. Além das disciplinas regulares da faculdade de Enfermagem, ele buscou aprimoramento pessoal fazendo aulas de inglês. Nos finais de semana, período que poderia ser destinado exclusivamente ao repouso, o trabalhador aproveitava o tempo livre para complementar o valor do aluguel realizando serviços manuais variados, tais como corte de grama, limpeza de piscinas e manutenção de cercas em propriedades privadas.
“Foi muito exigente, muito exigente. Porque eu tirava folga de segunda a semana para trabalhar e estudar. Cheguei final de semana, fiz biscates no sábado, no domingo tirei folga para revisar material e limpar a casa”, conta.
“Foi muito exigente, muito exigente. Porque eu tirava folga de segunda a semana para trabalhar e estudar. Cheguei final de semana, fiz biscates no sábado, no domingo tirei folga para revisar material e limpar a casa”
Antes da adoção da escala 12×36, a rotina de trabalho na Comurg seguia um padrão diferente, onde Junio trabalhava das 16h às 22h e aproveitava o período da manhã para realizar as entregas por aplicativo. A mudança nos horários operacionais da empresa exigiu uma reestruturação profunda em sua organização pessoal entre trabalho, descanso e obrigações acadêmicas. No entanto, o cumprimento do estágio obrigatório da graduação em Enfermagem revelou-se uma das etapas mais dramáticas e complexas de todo o processo de formação.
Para conseguir cumprir a carga horária exigida pela instituição de ensino sem abandonar o emprego na Comurg, Junio precisou negociar uma flexibilização em seu horário de trabalho com um superior hierárquico. Embora precisasse de duas horas de adaptação, ele não obteve a liberação amigável da empresa e acabou recorrendo à via legal para garantir o direito aos estudos.
“Fui à Justiça pedir que ele me deixasse entrar uma hora depois, que é meu direito de estágio… mas só pedi duas horas. Esse foi o meu maior desafio”, conta.

A busca pelo cumprimento dos estágios em meio aos conflitos de horário na empresa resultou em episódios dolorosos de faltas não justificadas, advertências verbais e a constante ameaça de suspensão do trabalho. Na tentativa de encontrar uma solução justa que permitisse manter o sustento e concluir a faculdade, o estudante entrou em contato com o Ministério Público do Trabalho e com a Corregedoria, porém não obteve respostas a tempo de evitar o desgaste. A pressão acumulada afetou gravemente sua saúde emocional e rotina pessoal.
“Eu não estava dormindo bem, pensando no que ia fazer amanhã, se ia fazer faculdade, se ia fazer estágio… minha cabeça estava muito cheia. Comecei a chorar, fiquei com raiva”, conta.
“Eu não estava dormindo bem, pensando no que ia fazer amanhã, se ia fazer faculdade, se ia fazer estágio… minha cabeça estava muito cheia. Comecei a chorar, fiquei com raiva”
Diante do esgotamento, a continuidade do sonho só foi possível graças à construção de uma sólida rede de apoio formada por professores da faculdade, familiares e companheiros da limpeza urbana. No ambiente acadêmico, os docentes tiveram sensibilidade para ajudá-lo a reorganizar parte da rotina de entregas de trabalhos, permitindo que ele compensasse atividades e acompanhasse as exigências teóricas sem perder o semestre.
A figura materna desempenhou um papel decisivo no momento de maior fragilidade emocional de Junio. A mãe de Luiz Junio sempre nutriu o desejo profundo de ver um de seus filhos conquistar o diploma de ensino superior, e esse sonho compartilhado se tornou a principal força motriz para que o gari não desistisse nos momentos mais sombrios da caminhada.
“Lembrei que já tinha perdido muito tempo, lembrei da minha mãe… aí falei: não, tenho que adiantar isso. Porque se acontecer alguma coisa, minha mãe morrer primeiro, vou ficar com a consciência pesada. Eu deveria ter terminado, pelo menos a mãe ficaria feliz”, conta.
“Lembrei que já tinha perdido muito tempo, lembrei da minha mãe… aí falei: não, tenho que adiantar isso. Porque se acontecer alguma coisa, minha mãe morrer primeiro, vou ficar com a consciência pesada. Eu deveria ter terminado, pelo menos a mãe ficaria feliz”
Além do suporte familiar e docente, os colegas de trabalho da Comurg estiveram presentes ao longo dos anos de dedicação. Diariamente, entre um turno e outro de varrição e coleta, os companheiros de farda perguntavam sobre o andamento das aulas, oferecendo palavras de encorajamento que faziam a diferença no ânimo do estudante.
“Por mais quieto que eu estivesse, no meu cantinho eles sempre perguntavam: ‘E aí, como você está? Não parou, né? Está difícil e tal?’. Sempre me davam aquele empurrãozinho”, lembra.
“Por mais quieto que eu estivesse, no meu cantinho eles sempre perguntavam: ‘E aí, como você está? Não parou, né? Está difícil e tal?’. Sempre me davam aquele empurrãozinho”
O gesto solidário dos colegas de trabalho funcionou como um porto seguro contra o desânimo. “Eles pegaram na minha mão, me ajudaram a sair do buraco que eu já estava… foi aí que pensei: quer saber o quê? Falta só um ano, não vou desistir agora, não”, relata com gratidão. A escolha pela Enfermagem possui raízes profundas na história da família de Junio, uma vez que a atuação no setor da saúde é uma tradição marcante entre as mulheres de sua família materna. Antes de ingressar no ensino superior, ele já havia demonstrado sua vocação ao concluir o curso técnico em enfermagem.
A trajetória profissional de Luiz Junio, contudo, começou longe da área da saúde e dos centros urbanos. Durante a infância e a adolescência, ele conciliava os estudos no período matutino com o trabalho em uma fazenda durante as tardes, onde prestava auxílio nos serviços rurais da região. Nessa mesma época, ele aprendeu a arte da costura com sua mãe. A transição para a limpeza urbana ocorreu após a aprovação em concurso público para a Comurg, garantia de estabilidade financeira que o permitiu deixar o trabalho no campo.

Embora a formatura tenha demorado mais do que o planejado originalmente devido às adversidades pessoais e obrigações profissionais, o objetivo principal foi atingido. Agora, enquanto aguarda a emissão oficial do diploma universitário, Junio planeja os próximos passos da carreira na saúde sem abrir mão imediatamente do sustento garantido pelo serviço público municipal. Entre suas metas de curto prazo está a busca por oportunidades em instituições hospitalares da capital goiana ou na atuação como cuidador de idosos.
“Assim que eu conseguir o diploma, farei isso. Tenho algumas recomendações para trabalhar em hospital. Queria muito trabalhar no Vaca Brava”, diz.
“Assim que eu conseguir o diploma, farei isso. Tenho algumas recomendações para trabalhar em hospital. Queria muito trabalhar no Vaca Brava”
No planejamento de longo prazo, Luiz Junio pretende se dedicar aos estudos para prestação de exames e concursos específicos para enfermeiros diplomados. Assim que consolidar uma colocação profissional na área de formação, fará a transição definitiva de carreira. “Quando eu passar no exame de enfermagem, vou abrir mão do cargo de gari, vou continuar minha vida como enfermeiro”, afirma convicto.
Entretanto, existe também a possibilidade de manter o vínculo com a própria Companhia de Urbanização de Goiânia, mas migrando para o setor interno de saúde da empresa pública. O recém-formado expressa o desejo de contribuir com o bem-estar dos próprios companheiros de trabalho. “Queria aliar o útil ao agradável e poder ajudar agora a Comurg com meu currículo”, destaca.
“Queria aliar o útil ao agradável e poder ajudar agora a Comurg com meu currículo”
Dentre as múltiplas especialidades da Enfermagem, a área de gerontologia e o cuidado dedicado à terceira idade são os campos de maior interesse para Junio. Essa preferência afetiva está diretamente conectada com sua história pessoal e com o processo de envelhecimento de sua própria mãe, que permaneceu como a grande inspiração ao longo de toda a sua jornada acadêmica.
A história do gari de Goiânia que superou jornadas exaustivas, conciliações financeiras complexas e barreiras judiciais para erguer o diploma de enfermeiro ecoa como um exemplo poderoso para milhares de trabalhadores em todo o país. O encerramento desta etapa acadêmica marca apenas o início de uma nova trajetória dedicada ao cuidado do próximo, demonstrando que a perseverança e o amor familiar são capazes de transformar sonhos distantes em conquistas concretas.
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Transformando vidas através da comunicação. Como mestre de cerimônias e cerimonialista, dedico-me a conduzir momentos memoráveis com excelência, utilizo a voz e a experiência em eventos para conectar pessoas e ideias. Atualmente, dedico-me à criação de conteúdo motivacional no YouTube e artigos voltados ao desenvolvimento pessoal e profissional.
