Todo professor que já atravessou um corredor de escola nos primeiros minutos de uma segunda-feira conhece a cena. Há o aluno que chega animado, o que chega calado e aquele que simplesmente não chegou. Atrás de cada um desses comportamentos existe uma história que o boletim não registra. Pode haver uma casa em que o clima anda pesado, uma noite em claro diante da tela do celular ou uma dúvida silenciosa sobre o que será da vida depois da formatura. É para esse território, delicado e cotidiano, que o Papa Leão XIV voltou os olhos nesta quinta-feira (22).
Em audiência no Vaticano, o pontífice falou a educadores e agentes de pastoral de escolas e universidades sobre uma pergunta que atravessa qualquer comunidade de ensino, religiosa ou não: como acompanhar quem está crescendo num tempo de tanta pressão? A resposta que ele ofereceu não passou por métodos sofisticados nem por fórmulas de engajamento. Passou por algo mais simples e, justamente por isso, mais exigente. Olhar para o estudante como pessoa, lembrar o nome dele, notar quando falta e se alegrar quando volta. É uma mensagem sem verniz, que cabe tanto numa sala de aula do interior quanto num auditório universitário de grande cidade.
A fala do Papa dialoga com algo que educadores de qualquer rede conhecem de perto: estudantes que parecem bem na superfície e carregam um peso que não sabem nomear. O discurso não tratou esse cenário como estatística, mas como convite à presença. O acolhimento, nesse cenário, deixa de ser detalhe de recepção e passa a ser o primeiro gesto de ensino. Quem se sente esperado tem mais chance de perguntar, de errar em voz alta e de continuar tentando depois do tropeço. Quem se sente apenas avaliado tende a esconder as dúvidas, e dúvida escondida raramente vira aprendizado.
“O acolhimento, nesse cenário, deixa de ser detalhe de recepção e passa a ser o primeiro gesto de ensino.”
Foi com esse espírito que Leão XIV recebeu, na Sala Paulo VI, cerca de mil participantes do Congresso Internacional sobre a Pastoral Escolar e Universitária, segundo informou o Vatican News. Vindos de diferentes partes do mundo, os congressistas ocupam funções distintas, mas compartilham uma missão: acompanhar adolescentes e jovens adultos dentro de instituições educacionais e acadêmicas de inspiração católica. O pontífice abriu o discurso agradecendo a presença de todos e reconhecendo o trabalho de quem, no dia a dia, anuncia o Evangelho e defende a dignidade da pessoa humana nesses ambientes.

A audiência desta quinta-feira (22/10) reuniu congressistas de várias partes do mundo, e o tom foi de reconhecimento e de convocação ao mesmo tempo. O Papa disse receber os presentes com alegria e os parabenizou pelo empenho em favor do anúncio do Evangelho e da dignidade da pessoa. Em seguida, deixou claro qual deve ser o centro da atuação pastoral nas escolas e universidades: responder ao anseio que cada estudante carrega por dentro e percorrer, junto com ele, um caminho que seja ao mesmo tempo humano e cristão. A ordem das palavras importa, porque coloca a pessoa antes de qualquer programa, calendário ou campanha institucional.
Leão XIV fez questão de começar pelo que há de bom nos jovens. Segundo ele, os destinatários desse trabalho pastoral se destacam pelo entusiasmo, pela generosidade e pelo espírito de serviço. É um retrato que foge do clichê de uma geração apática e lembra que a energia para o bem já está presente nas salas de aula. A partir daí, porém, o discurso fez um contraponto direto. O Papa chamou atenção para o fato de que parte expressiva desses estudantes atravessa uma dor que não aparece na superfície, um sofrimento existencial que pede escuta antes de qualquer conselho. É nessa realidade, e não numa idealização, que a pastoral precisa atuar.
“É um retrato que foge do clichê de uma geração apática e lembra que a energia para o bem já está presente nas salas de aula.”
Ele apontou quatro fontes dessa dor: famílias abaladas, solidão digital, sentimento de inadequação e medo diante de um futuro que parece incerto. Cada uma delas tem rosto conhecido. A família abalada pode ser a de quem vive uma separação, uma perda ou uma dificuldade que ninguém comenta na escola. A solidão digital é a de quem tem centenas de contatos e ninguém com quem conversar de verdade. A inadequação surge quando o jovem se compara e conclui que está sempre um passo atrás. E o medo do futuro pesa sobre quem não consegue enxergar o que virá depois da formatura, num mundo que muda depressa demais para caber em planos de longo prazo.
Diante desse quadro, a primeira proposta de Leão XIV foi surpreendentemente simples. Escolas e universidades católicas, disse ele, precisam ser antes de tudo uma casa, um lugar familiar onde cada pessoa é esperada. Não se trata de uma imagem decorativa. O Papa associou a ideia ao que chamou de primeiro anúncio, que muitas vezes passa por um estilo de acolhimento e não por um discurso elaborado. Em outras palavras, antes de qualquer explicação sobre a fé, a comunidade já comunica algo pelo modo como trata quem chega. A sala de aula, o pátio e a secretaria também falam, e o que dizem pode abrir ou fechar portas.
É nesse ponto que a fala ganha contornos de gestos concretos. O Papa descreveu alguém que olha nos olhos, que guarda o nome, que percebe a ausência e se alegra com o retorno. Nenhum desses gestos exige orçamento, estrutura ou tecnologia, e todos eles dependem de atenção. Num ambiente assim, explicou o pontífice, o estudante encontra espaço para dizer o que realmente deseja, que é compreender a realidade e dar sentido a ela. A curiosidade, que muitas vezes se esconde por medo de parecer ingênua, passa a ter lugar. E uma pergunta bem acolhida costuma render mais do que dez respostas entregues a quem ainda não se sentiu ouvido.
“Nenhum desses gestos exige orçamento, estrutura ou tecnologia, e todos eles dependem de atenção.”
O “como” dessa pastoral, na leitura de Leão XIV, tem dois movimentos. O primeiro é o encontro: ele pediu que os jovens possam experimentar a beleza de encontrar Cristo. O segundo é o diálogo entre fé e razão, a fecundidade da sinergia entre o saber da fé e os demais saberes. Para quem trabalha em sala de aula, a mensagem é que a dimensão espiritual não precisa competir com a matemática, a biologia ou a literatura. As áreas se iluminam mutuamente, e a pastoral tem o papel de facilitar essa conversa em vez de afastá-la. É uma visão que valoriza o estudo sério e o recebe como parte, não como ameaça, da vida de fé.
O pontífice também descreveu a tarefa em termos de tempo. A pastoral escolar e universitária, afirmou, é chamada a acompanhar o lento amadurecimento do pensamento, ensinar a discernir e buscar com perseverança. A palavra “lento” merece destaque num ambiente acostumado a respostas imediatas e a notas que chegam em minutos. Discernir não é decorar; é aprender a pesar opções, reconhecer o que importa e sustentar uma busca mesmo quando o resultado demora. É um aprendizado que se faz acompanhado, e é por isso que a presença de adultos atentos pesa tanto na trajetória de quem ainda está formando suas convicções e seu jeito de enxergar o mundo.
Na prática, isso desenha um perfil de agente pastoral bem diferente do de um palestrante. É alguém que caminha ao lado, que aceita conviver com perguntas ainda mal formuladas e que não se assusta com o ritmo próprio de cada estudante. Um capelão que almoça no refeitório, uma professora que reserva alguns minutos depois da aula, um coordenador que procura a família de quem sumiu: esses exemplos ilustram o espírito do que foi dito, ainda que não tenham sido citados no discurso. Em todos eles, o que conta é a disponibilidade constante, a disposição de estar por perto antes que o problema vire crise e de continuar por perto depois que ele passa.
“Discernir não é decorar; é aprender a pesar opções, reconhecer o que importa e sustentar uma busca mesmo quando o resultado demora.”
O discurso também mostra que acompanhar não significa tutelar. Ao pedir que os jovens sejam ajudados a ser protagonistas, o Papa afasta a imagem de um estudante que apenas recebe instrução e aprovação. Protagonismo, aqui, é participar da construção do próprio caminho e do ambiente à sua volta, assumindo responsabilidade sobre o que se aprende e sobre quem está ao lado. Isso exige confiança dos adultos e coragem dos próprios jovens, tema que ocupa boa parte da fala e que reaparece com força nos trechos seguintes. A pastoral, nessa perspectiva, funciona menos como vitrine institucional e mais como oficina de pessoas.

Para entender por que o Papa insistiu tanto no acolhimento, é preciso olhar para o diagnóstico que ele apresentou da cultura atual. Segundo Leão XIV, muitos jovens ficam praticamente paralisados pelo medo: de errar, de não estar à altura, de serem mal interpretados, de não corresponder ao que se espera deles. O adjetivo “paralisados” é forte e descreve algo reconhecível. É o aluno que não levanta a mão, o candidato que não se inscreve, o universitário que adia o trabalho final até o último dia por receio de entregar algo imperfeito. O medo, nesse caso, não é só emoção passageira; funciona como freio permanente.
A raiz desse bloqueio, segundo o pontífice, está numa cultura do desempenho que compara e classifica as pessoas o tempo todo, por vezes sem piedade. Ele foi além e afirmou que uma meritocracia mal compreendida acaba não respeitando as pessoas. A crítica não é ao esforço nem ao mérito em si, mas à ideia de que o valor de alguém se resume ao que consegue provar. Quando isso acontece, o ranking passa a ocupar o lugar da pessoa, e o resultado é um tipo de cansaço que não se resolve com mais produtividade. Ninguém descansa de verdade sob a sensação permanente de estar sendo medido por tudo o que faz.
A consequência, na observação do Papa, é que muitos acabam desistindo antes mesmo de tentar. A frase merece atenção porque desloca o problema do fracasso para a renúncia prévia. O jovem não falha; ele se retira. E quem se retira antes de tentar perde a chance de descobrir do que é capaz, de aprender com o erro e de descobrir que ele não é o fim da linha. Uma escola ou universidade que apenas cobra desempenho, sem oferecer um lugar seguro para tentar, pode estar, sem querer, alimentando esse movimento de retirada. O acolhimento, portanto, é também uma estratégia de permanência e de aprendizado.
“A crítica não é ao esforço nem ao mérito em si, mas à ideia de que o valor de alguém se resume ao que consegue provar.”
Há ainda uma camada espiritual no argumento. O Papa advertiu que falsos mestres e mensagens enganosas prometem respostas rápidas às perguntas dos jovens. É um alerta pertinente para um tempo em que qualquer dúvida existencial encontra, em segundos, alguém disposto a vender uma resposta pronta, seja em vídeo curto, seja em fórmula de autoajuda. A pergunta de um jovem raramente é pequena, e a pressa em respondê-la pode ser uma forma de não escutá-la. Quem pergunta sobre sentido, pertencimento ou futuro merece mais do que um slogan. Merece companhia para elaborar a própria resposta, com tempo e com liberdade.
Por isso a alternativa proposta por Leão XIV não é uma resposta mais rápida, e sim uma companhia mais fiel. Os agentes pastorais, disse ele, escolheram algo maior: caminhar com os jovens ao longo do percurso, até que descubram os dons que Deus já depositou neles. Essa formulação inverte a lógica da pressa. Em vez de entregar ao estudante o que lhe falta, a pastoral ajuda a revelar o que ele já tem. O foco sai da carência e vai para o potencial, o que muda o tom da relação entre educador e educando e permite que a conversa comece de um lugar de respeito, e não de cobrança.
O ponto talvez mais humano do discurso é a ideia de que a coragem não é pré-requisito, e sim consequência. Leão XIV disse que ela nasce de um pacto de confiança, da experiência de ter ao lado alguém que acredita em você antes mesmo de você acreditar em si. Para ilustrar, recorreu ao Evangelho: Jesus não escolheu os Doze porque eles já eram corajosos; chamou-os e, com sua confiança, tornou-os capazes. A imagem desloca o foco do talento para o vínculo e dá aos educadores uma responsabilidade enorme, a de serem, para alguém, a primeira pessoa que aposta nele. Muitas trajetórias de superação começam justamente assim, com um adulto que enxergou antes.
“Em vez de entregar ao estudante o que lhe falta, a pastoral ajuda a revelar o que ele já tem.”
Esse raciocínio tem desdobramentos práticos para quem lida com estudantes diariamente. Elogiar apenas o resultado final pode reforçar a lógica do desempenho; reconhecer o esforço, a tentativa e o progresso reforça a lógica da confiança. Um professor que diz “eu sei que você consegue” antes da prova faz algo diferente de quem apenas cobra a nota depois. O Papa não detalhou essas situações, mas a ideia de fundo aponta nessa direção: apostar na pessoa antes que ela apresente provas. É uma mudança de postura que não depende de grandes reformas e pode começar amanhã, em qualquer turma, com qualquer professor.
O pontífice acrescentou uma observação sobre o que há por trás da pose de muitos adolescentes. Segundo ele, sob a armadura que tantos constroem para não sofrer, esconde-se o desejo de amar e de ser amado. Quem convive com jovens reconhece a cena: a indiferença fingida, a ironia como escudo, o silêncio de quem decidiu não se expor. O Papa convida a ver nessa couraça uma defesa e não uma identidade. Essa leitura muda a forma de reagir ao comportamento difícil, porque troca a pergunta “o que há de errado com este aluno?” por “do que ele está se protegendo?”. A segunda pergunta abre espaço para uma conversa possível.
“O Papa convida a ver nessa couraça uma defesa e não uma identidade.”
A partir daí, Leão XIV propôs educar o coração. Compaixão, gratidão, capacidade de se deixar tocar pela dor dos outros, louvor e desejo de Deus formam o conjunto de disposições que ele quer ver cultivadas nos jovens. Não se trata de um programa de emoções administradas, e sim de uma formação do olhar: aprender a notar o outro, agradecer pelo que se recebe e abrir espaço para o transcendente. É uma educação que complementa a do raciocínio e a das competências profissionais e que ajuda o jovem a viver menos fechado em si mesmo, mais atento ao que acontece ao redor e mais livre para se relacionar.

O Papa também deu endereço concreto a essa formação. O serviço aos pobres, o voluntariado e o cuidado com a criação, afirmou, não são atividades secundárias; são espaços em que o coração aprende a se expandir. Para escolas e universidades, isso significa que campanhas solidárias, mutirões e projetos ambientais não devem ser tratados como enfeite de calendário ou carga horária complementar. São lugares onde a formação acontece de fato, porque colocam o estudante diante de gente real, com nome, história e necessidades. É nesse contato que a compaixão deixa de ser conceito e passa a ser hábito, e que o cuidado com a casa comum ganha sentido.
Ele fechou esse raciocínio lembrando que a caridade e a oração são inseparáveis. A frase corrige duas tentações opostas: a de reduzir a fé a práticas internas, sem consequência no mundo, e a de reduzir o serviço a ativismo, sem raiz espiritual. Para a comunidade escolar, o recado é de equilíbrio. Quem reza aprende a olhar para o outro com mais atenção, e quem serve descobre que a oração ganha rosto. Nenhuma das duas dimensões substitui a outra, e a maturidade de quem acompanha jovens está em saber costurá-las com naturalidade, sem impor fórmulas e sem fazer da espiritualidade um adereço.
Texto em Destaque: “Quem reza aprende a olhar para o outro com mais atenção, e quem serve descobre que a oração ganha rosto.”
Ao encerrar, Leão XIV dirigiu-se aos presentes como irmãos e irmãs e reforçou o sentido da escolha que fizeram: em vez de oferecer respostas rápidas, optaram por caminhar com os jovens. Essa é a imagem que fica do encontro. Não há tom de cobrança nem de sermão; há reconhecimento de que o trabalho pastoral em escolas e universidades é paciente, pouco visível e decisivo na vida de quem passa por ali. É uma tarefa que raramente aparece nas manchetes, mas que se mede em histórias individuais, em jovens que seguiram estudando, que reencontraram um motivo ou que simplesmente se sentiram vistos num momento difícil.
Para quem não faz parte do universo católico, o discurso também oferece pontos de reflexão acessíveis. Pais, professores, orientadores e coordenadores de qualquer rede de ensino podem se perguntar se o ambiente em que atuam é uma casa onde as pessoas são esperadas, se o medo de errar tem sido alimentado por avaliações implacáveis e se os jovens contam com alguém que acredite neles antes que apresentem resultados. São perguntas simples, mas capazes de mudar a conversa em casa e na escola. Não exigem convicção religiosa, apenas disposição para observar com mais cuidado quem está do outro lado da carteira ou da mesa de jantar.
No fim das contas, a mensagem de Leão XIV aos congressistas cabe numa ideia: o que um jovem mais precisa, para ser protagonista de uma nova maneira de habitar o mundo, é de alguém que o espere, o escute e confie nele. Para quem acompanha de perto o dia a dia de escolas, igrejas e comunidades, o convite é concreto. Começar pelo gesto pequeno de lembrar um nome, perceber uma ausência e celebrar um retorno. É por aí que, muitas vezes, a coragem começa, e é por aí que uma comunidade se torna, de fato, um lugar onde vale a pena voltar todos os dias.
“O que um jovem mais precisa, para ser protagonista de uma nova maneira de habitar o mundo, é de alguém que o espere, o escute e confie nele.”
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Transformando vidas através da comunicação. Como mestre de cerimônias e cerimonialista, dedico-me a conduzir momentos memoráveis com excelência, utilizo a voz e a experiência em eventos para conectar pessoas e ideias. Atualmente, dedico-me à criação de conteúdo motivacional no YouTube e artigos voltados ao desenvolvimento pessoal e profissional.
