Chico Lobo celebra 45 anos de carreira e lança o disco Recibo de Violeiro

Chico Lobo celebra 45 anos de carreira e lança o disco Recibo de Violeiro

Arte e Cultura
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A trajetória da música caipira e da viola de arame no Brasil confunde-se, em larga medida, com a própria história viva de quem dedica a vida a salvaguardar e reinventar essas tradições. Ao completar 45 anos de estrada nos palcos e três décadas do lançamento de seu trabalho inaugural solo, o violeiro e compositor mineiro Chico Lobo reafirma sua identidade profunda com o interior do país. Seu 36º projeto fonográfico, intitulado “Recibo de Violeiro”, chega ao público nesta sexta-feira, 30 de outubro, sob o selo da histórica gravadora Kuarup, trazendo também o formato físico em CD para colecionadores e entusiastas do gênero.

Nascido em São João Del Rei no ano de 1964, o artista iniciou sua jornada pública em 1981, integrando o tradicional Grupo Mutirão no palco do Teatro Municipal de sua terra natal. Desde então, a viola caipira deixou de ser apenas um instrumento folclórico para se tornar a ponte de conexão entre a essência matuta e as diversas manifestações da MPB. O novo álbum celebra justamente esse percurso contínuo de pesquisa, preservação e constante diálogo com outros territórios artísticos.

O álbum “Recibo de Violeiro” sintetiza o dinamismo da cultura caipira ao longo de suas dez composições inéditas e autorais. Sob a direção musical de Ricardo Gomes, parceiro de produção de Chico Lobo desde 2016, a obra passeia por diferentes vertentes e sotaques sonoros que habitam o imaginário nacional. Das toadas bucólicas aos batuques pulsantes, passando pelas folias de reis e modas tradicionais, o trabalho reflete uma maturidade artística lapidada em anos de pesquisa e vivência de campo.

A versatilidade das faixas revela um compositor que domina a linguagem da tradição sem se prender a amarras ou fórmulas engessadas. A abertura e o desenvolvimento do repertório transitam naturally do samba rural, presente em “Cantar é um dom grande”, até as nuances poéticas de “Viola do tempo”, obra composta em parceria com o poeta gaucho Carlos Di Jaguarão. Essa capacidade de entrelaçar a rusticidade do instrumento com harmonias mais elaboradas evidencia o papel do instrumentista como um dos pilares da renovação da viola no cenário contemporâneo.

Instrumento musical viola caipira apoiado em mesa de madeira rústica iluminada por luz suave.
A viola de arame permanece como o centro criativo e poético no novo trabalho de Chico Lobo.

“Chico Lobo é catira e rock, modão e reisado, blues e congada.”

A definição dada pelo compositor maranhense Zeca Baleiro sintetiza com precisão o espírito que norteia o disco. Baleiro, que divide a interpretação da faixa folclórica “Coração de sertãozinho”, costuma apontar o amigo mineiro como um verdadeiro “mapeador musical do Brasil”, capaz de enxergar pontes onde muitos veem apenas fronteiras entre gêneros artísticos.

Um dos grandes destaques de “Recibo de Violeiro” reside no seleto grupo de convidados que somam vozes e instrumentos à sonoridade de Chico Lobo. As colaborações não acontecem por mero ornamento comercial, mas por uma afinidade estética e afetiva construída ao longo de décadas. Um dos momentos mais singulares do álbum ocorre na faixa “Seu Ol”, em que a melodia caipira se entrelaça ao balanço elegante da bossa nova, enriquecida pela interpretação vocal e ao piano da paraense Leila Pinheiro.

O diálogo com o pop e com o rock também se faz presente de maneira orgânica. Na música-título, “Recibo de violeiro”, parceria de Lobo com Thales Martinez, o rock rural ganha contornos marcantes com a participação de Humberto Gessinger, músico conhecido por sua trajetória à frente dos Engenheiros do Hawaii, mas também exímio apreciador e tocador de viola. Em outra vertente descontraída, o tradicional calango mineiro ganha vida em “Goiabada com queijo”, autoria dividida entre Chico Lobo e John Ulhoa, com vocais de Ulhoa e Fernanda Takai, do Pato Fu.

Estúdio de gravação de música acústica com microfone vintage e iluminação acolhedora.
A produção musical de Ricardo Gomes buscou equilibrar a rusticidade caipira e arranjos modernos.

O disco reserva ainda espaço para o lirismo romântico na canção “A manteiga e o pão”, a religiosidade popular na festiva “Na companhia de bichos” e a urgência da pauta socioambiental na faixa “Águas do meu amor”, entoada em parceria com Jane Duboc.

Além de representar um novo capítulo em sua extensa discografia, “Recibo de Violeiro” carrega uma forte carga emocional e comemorativa. O álbum é formalmente dedicado por Chico Lobo aos seus antigos companheiros do Grupo Mutirão. Foi com o coletivo de São João Del Rei que o artista pisou profissionalmente em um palco pela primeira vez, em 1981, iniciando a trajetória que o consolidaria como um dos grandes mestres do instrumento no Brasil.

O reencontro com as raízes também ganha expressão sonora direta na faixa “Batuquinho”, um batuque de viola que conta com a participação especial dos próprios integrantes do Grupo Mutirão. Esse gesto fecha um ciclo de 45 anos de dedicação ininterrupta à cultura popular, demonstrando que a evolução artística de Chico Lobo jamais se afastou do solo firme onde brotaram suas primeiras notas.

Disponível nas plataformas digitais e em formato físico, o trabalho reforça a longevidade de uma obra dedicada a traduzir a alma do Brasil profundo para todas as gerações.

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